GUIA DETALHADO DE PREPARAÇÃO DE LEITES VEGETAIS

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Bem vindas/os a mais um post da série Despensa Básica, onde eu compartilho receitas caseiras de molhos, temperos e complementos que procuro manter em estoque na nossa despensa/geladeira para não precisar depender de suas versões industrializadas. Assim como as outras receitas do blog, estas versões veganizadas são fáceis de preparar e deliciosas! 


Faz uns 3 anos que eu faço os meus próprios leites vegetais. O processo é muito-muito simples e leva, no máximo, 10 minutos. Vai parecer clichê, mas eu me sinto muito empoderada fazendo meu próprio leite. É como se fosse uma declaração de liberdade. Eu escolho o que eu como e o que eu coloco na minha comida. Eu decido o que entra no meu corpo.

Desde que comecei a escrever aqui, tenho pensado se eu carrego alguma bandeira neste mundo cheio de ideologias. Qual é o meu discurso? Eu defendo alguma ideia? Minha alimentação é toda vegetal, ok, mas o que me motiva a escrever e o que me faz ir para a cozinha (quase) todos os dias é a vontade de comer alimentos na-tu-rais.

Lá em 2012, quando eu comecei a me informar sobre os ingredientes que eu encontrava nos pacotes dos alimentos que eu consumia, minha sensação inicial foi de total perplexidade e impotência. Perplexidade por perceber o nível de desconexão a que chegamos como comunidade, afinal, são seres humanos que elaboram as fórmulas tóxicas dos alimentos ultramega processados que deixam outros seres humanos doentes… nós claramente não estamos conseguindo enxergar a linha que nos conecta. E impotência por me sentir refém dessa realidade e achar que não podia fazer muito a respeito.

Foi por isso que comecei a estudar, a ler pra caramba, assistir documentários, palestras, discussões, sempre com a mente aberta e o senso crítico alerta, para não sair de um engodo e ser enrolada em outro. A indústria dos alimentos processados e dos agrotóxicos é maluca, inescrupulosa e nada sustentável, mas eu fico alerta para não acabarmos transferindo toda essa neurose para a indústria dos alimentos “naturais”. O que pega é a palavra indústria e essa busca por lucro que nos leva, muitas vezes, a trilhar caminhos duvidosos.

Por isso, fazer meu próprio leite, queijo, geléia, hambúrguer em casa é quase um ato pessoal de rebeldia (vindo de alguém muito pouco rebelde, devo admitir). Esse é meu jeito de dizer para esse mundo desvirtuado dos alimentos de caixinha “eu sei o que vocês estão fazendo e eu não vou deixar toda essa porcaria entrar no meu corpo”.

Não, não sou ortodoxa. Você vai me ver comendo hambúrguer vegetariano com catchup e mostarda no restaurante que tem ao lado do meu consultório. E, de vez em quando, tomando uma Coca-Cola. Olho para aquilo, sei que é porcaria, assumo responsabilidade pela minha saúde e mando ver! Não sou perfeita e percebi que tentar a perfeição, em qualquer área da vida, é estressante, neurotizante e controlador. Tudo o que não precisamos ser.

E, amigos, no sábado de manhã, quando chego da feira com as castanhas da semana e começo a prepará-las para as receitas, abro um sorriso e penso que, independente de qualquer outra coisa, é mesmo muito divertido preparar o meu leitinho em casa, escolher o sabor da semana, guardar em um vidro fofo na geladeira, e tomar na hora que eu quiser. <3


Existem muitos sabores e matérias-primas para preparar leite vegetal. Você pode usar praticamente qualquer castanha ou semente que passar pela sua cabeça. Castanhas e sementes são as opções mais comuns. Mas como não existe limite para a imaginação, no último sábado fui visitar uma amiga e ela me deu um leite de mandioquinha para provar, que eu aceitei esperando que fosse bizarro, mas achei super saboroso.

Pinterest __ Receitas

Para este guia eu escolhi falar sobre os 4 tipos que eu mais preparo em casa: aveia, coco, castanha do Brasil e amêndoas. Eles são nutritivos, são fáceis de preparar e são economicamente acessíveis. Outras castanhas e sementes, como macadâmia, pistache e sementes de cânhamo, também viram leites maravilhosos, mas são mais caros e eu não considero viáveis para o meu dia-a-dia.

A partir da base que eu estou apresentando aqui você pode inventar e pirar. Dá para misturar castanhas no mesmo leite, colocar cacau e fazer um achocolatado, misturar com canela para aquecer o coração…


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– O BÁSICO –

DEMOLHO
Eu deixo no demolho todas as bases dos meus leites vegetais. Algumas castanhas nem precisam passar por esse processo, mas eu gosto de deixá-las algumas horas na água limpa e fresca. A aveia precisa apenas de 30min no demolho, e o coco não precisa ser hidratado antes de virar leite.

RECIPIENTES
Não uso plástico de jeito nenhum! Muitos são feitos de materiais tóxicos e duram muito menos do que o vidro. Além disso, o plástico mancha, fica feio, não dá para esterilizar em casa e pode modificar o sabor do alimento. Em vez disso, uso garrafinhas de vidro reaproveitadas de sucos, kombuchas, água mineral, óleo de coco etc. Eu acho lindinho quando vejo a geladeira arrumada com várias garrafinhas diferentes e fofas nas prateleiras.

COADOR
Hoje em dia é super fácil encontrar coadores para leite vegetal em lojas de produtos naturais. Normalmente eles são feitos de uma tela parecida com voal e parecem um saquinho de pano. Em casa eu uso um guardanapo de tecido bem fino – presente da minha avó – que funciona super bem.

ESTERILIZAÇÃO
Este passo não é essencial, mas já percebi que faz com que o leite dure por mais tempo na geladeira. Alguns meses atrás meus leites vegetais começaram a azedar menos de 24h depois de serem preparados, mesmo guardados na geladeira em recipientes limpinhos. Resolvi fazer uma revisão do processo de fazimento deles e percebi que os vidros e o próprio liquidificador poderiam estar contaminando o líquido. Desde então passei a esterilizar os vidros. Não é sempre que eu sinto necessidade, mas a cada 2 ou 3 vezes utilizando a mesma garrafa de vidro, eu faço o procedimento de esterilização.

Para esterilizar é só colocar a(s) garrafa(s) de vidro dentro de uma panela com água e deixar ferver. Quando a água alcançar fervura, deixe em fogo alto por 10min e desligue. Retire o vidro ainda quente e coloque de cabeça para baixo sobre uma toalha ou papel toalha limpos. Espere o vidro esfriar e encha com o leite vegetal.

CONSERVAÇÃO
O leite que a gente faz em casa não tem conservantes nem é pasteurizado, certo? Então ele vai durar pouquinho na geladeira, de 3 a 4 dias, no máximo. Isso é inconveniente? Um pouco. Mas esse tempo natural de duração do leite me faz pensar como é bizarro que um leite de vaca dure meses em uma prateleira de mercado. Tem alguma coisa errada, e não é com o meu leite, não!

Eu tenho preguiça de fazer leite todo dia. Não rola. Apesar de ser fácil e rápido, tem horas que eu só quero abrir a geladeira e colocar leite na minha xícara de café sem ter que passar pelo liquidificador. Então fui desenvolvendo alguns macetes ao longo do tempo para ter menos trabalho e passar menos horas na cozinha. Os dois que eu uso até hoje são estes:

Preparar o leite com antecedência e CONGELAR pronto em formas de gelo.
Dura semanas no freezer e já está coado, por isso eu jogo no liquidificador para fazer vitaminas, coloco 1 a 2 cubos no café quente para fazer café com leite, aqueço na panela para fazer mingau.

Leites que ficam bons depois de congelados: aveia, castanhas.
Leite que não fica legal congelado: coco.

Preparar o leite na hora e NÃO COAR depois de bater no liquidificador.
Como o leite não está coado, não fica legal no café ou na vitamina, mas é ótimo para fazer mingau, preparar caldos ou usar em receitas de brigadeiros e bolos mais rústicos.

Leites que ficam bons sem coar: aveia, coco, amêndoas.
Leite que não fica tão legal sem coar: castanha do Brasil (porque o resíduo é mais grosso e consistente).

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– AS RECEITAS –

Leite de aveia
Sabor marcante e o mais fácil de fazer. Um dos meus favoritos para fazer vitaminas.

Rendimento: aprox. 1 litro
Demolho: 30 minutos

Ingredientes:
1 xícara de aveia em flocos
4 xícaras de água

Instruções:
Retire a aveia do molho e drene toda a água. A aveia vai estar gosmenta, isso é normal. Bata a aveia e as 4 xícaras de água no liquidificador por 1 minuto na velocidade alta. Desligue o liquidificador e passe o líquido por uma peneira fina, amassando com a ajuda de uma colher para retirar todo o líquido (a aveia em flocos gera menos resíduo e não precisa ser coada com voal). Jogue fora o resíduo e guarde o leite em recipiente fechado, dentro da geladeira, por até 4 dias.

Leite de castanha do Brasil
Super cremoso, é o meu favorito para tomar com café e fazer mingau.

Rendimento: aprox. 750 ml
Demolho: 4 horas

Ingredientes:

1 xícara de castanha do Brasil crua
3 xícaras de água

Instruções:
Jogue fora a água do molho e coloque as castanhas no liquidificador. Bata com 3 xícaras de água por 2 minutos na velocidade alta. Desligue o liquidificador e passe o leite pelo coador de tecido, amassando e girando com as mãos para espremer todo o líquido. Você pode reutilizar o resíduo em vitaminas, cookies, bolos ou fazendo ricotinha temperada. Transfira o leite para um recipiente fechado e guarde dentro da geladeira por até 4 dias.

Leite de coco
Sabor suave. Tem consistência mais rala, por isso gosto de prepará-lo com menos água do que os outros. É ótimo para usar em receitas salgadas, como na preparação de arroz cremoso, dahl, sopas. 

Rendimento: de 500 a 750 ml
Demolho: não precisa

Ingredientes:
1 xícara de coco ralado (seco ou fresco) sem açúcar
2 a 3 xícaras de água, de acordo com a consistência desejada

Instruções:
Se estiver usando coco seco, use água quente. Se estiver usando coco fresco, use água fresca. Bata o coco no liquidificador com 2 ou 3 xícaras de água por 1 minuto na velocidade normal. O coco fresco vai mudando de consistência se ficar muito tempo batendo no liquidificador, e vira uma manteiga, por isso exige mais atenção nesta etapa do processo. Desligue o liquidificador e passe o leite pelo coador de tecido, amassando e girando com as mãos para espremer todo o líquido. Transfira o líquido para um recipiente fechado e guarde dentro da geladeira por até 4 dias.

Leite de amêndoas
Sabor suave e consistência cremosa. Fica ótimo no mingau e em vitaminas. Além disso, é super nutritivo.

Rendimento: aprox. 1 litro
Demolho: 6 horas

Ingredientes:
1 xícara de amêndoas cruas (com ou sem casca)
4 xícaras de água

Instruções:
Jogue fora a água do molho e coloque as amêndoas no liquidificador. Bata com 4 xícaras de água por 2 minutos na velocidade alta. Desligue o liquidificador e passe o leite pelo coador de tecido, amassando e girando com as mãos para espremer todo o líquido. Você pode reutilizar o resíduo em vitaminas, cookies, bolos ou fazendo ricotinha temperada. Transfira o leite para um recipiente fechado e guarde dentro da geladeira por até 4 dias.

DICA:  Para qualquer uma dessas receitas, acrescente no liquidificador uma tâmara sem caroço ou 1 colher-café de extrato de baunilha para adoçar e dar mais sabor ao leite


Quero dizer mais uma coisinha antes de finalizar: não se apegue demais às quantidades e proporções. Eu gosto do leite um pouco mais consistente, mas você pode acrescentar água se quiser que o seu leite fique mais ralo, ou pode colocar menos água se quiser um leite mais grosso. Aproveite minhas sugestões como base, e a partir daí encontre a sua pegada.

Lembre-se que a ideia – SEMPRE – é se divertir!

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14 comentários sobre “GUIA DETALHADO DE PREPARAÇÃO DE LEITES VEGETAIS

  1. Adorei! Duas perguntinhas:

    1) O resíduo da aveia não tem uso algum? Nem para fazer pancake ou cookies?

    2) Posso congelar o leite todo e depois usar normalmente? Em vez de usar os cubos de gelo?

  2. Que coisa interessante você falou sobre o “nível de desconexão a que chegamos enquanto comunidade”! É bem isso mesmo! Quanto mais leio sobre o leite de caixinha, mais enojada eu fico. Decidi parar de comprar e acabei agora de fazer o leite de castanhas, conforme sua receita. Ficou ótimo! Obrigada.

  3. faço meus leites tambem com quinoa, semente de abobora , gergelim, para bebê acima de um ano pode usar amendoas, mas tudo cozido, tenho uma maquina que faz,mas da pra fazer manualmente, se eke nao sofrer um cozimento, leve as vitaminas ficam bem reduzidad

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